Tela inicial redesenhada do módulo de checklist, com 'Continue de onde parou' em destaque

Redesign do fluxo de checklist de auditoria para uma rede de varejo

Um mesmo produto servia dois trabalhos opostos: definir o padrão e cumprir o padrão. Separá-los foi o projeto.

Design challenge, processo seletivoJulho de 2026Web (desktop) e mobileProduct DesignUX DesignUI Design

Minha atuação

Projeto individual: diagnóstico, benchmarking, priorização, redesign das três telas e defesa das decisões. Usei IA (Claude) como parceria de pensamento para estruturar o diagnóstico, a priorização e o benchmarking. As decisões de design, a execução e a defesa são minhas.

Time

Solo. Sem PM, sem devs, sem acesso a usuários reais.

Problema

Um mesmo produto atendia dois trabalhos opostos, criar o padrão e cumprir o padrão, com a mesma linguagem e o mesmo peso visual. Cada tela pagava o preço de ter sido desenhada para a outra.

Ação

Reenquadrei o problema, priorizei as dores por severidade, usei benchmarking dirigido por dor e redesenhei as três telas separando criação (desktop, densa, com reuso) de aplicação (mobile-first, linear, conduzida).

Resultado

O teste prático foi aprovado.

Contexto

Um teste prático para uma vaga de Product Designer me deu três telas de um produto real de gestão de redes: a home do módulo, a criação de checklist e a aplicação de checklist. O cenário era o de uma rede de varejo esportivo com dezenas de lojas pelo Brasil, onde o checklist é o instrumento que carrega o padrão de qualidade, é como a matriz define o que é uma loja bem operada e como cada unidade prova que está entregando isso.

Era um redesign de produto existente, com o briefing apontando que a criação tinha passos demais e que a aplicação não orientava bem o usuário. Não havia acesso a usuários reais, dados de uso ou stakeholders para entrevistar.

Trabalhei sozinho, do diagnóstico à alta fidelidade, e levei dois dias para entregar.

O problema

Antes de resolver o que o briefing apontava, precisei entender por que aqueles sintomas existiam. A resposta mudou o projeto inteiro.

Para o usuário. O produto tratava dois usuários muito diferentes como se fossem um só. O gestor de operações na matriz define uma vez um checklist que dezenas de lojas vão seguir: tarefa rara, feita com calma no desktop, de alta consequência, porque um erro se multiplica por todas as unidades. Ele precisa de poder e estrutura. O gerente de loja abre a unidade às 8h com o celular na mão e precisa passar o checklist rápido, registrando não conformidade com foto no lugar: tarefa diária, de alta frequência e tolerância zero a fricção. Ele precisa de velocidade e orientação. Os dois recebiam a mesma interface.

Para o negócio. A rede só existe como marca se o padrão de qualidade se mantiver em escala. O checklist é o mecanismo que sustenta isso, e o dado mais valioso que ele produz é a não conformidade, porque é o que dispara ação corretiva. Só que, na tela original, era exatamente esse registro o menos guiado: marcar “Não” não puxava nada, e foto e plano de ação eram botões opcionais soltos, com o mesmo peso de um comentário. O sistema estava desenhado para coletar respostas, não para produzir ação.

O reframe

Uma ferramenta genérica para dois trabalhos opostos.

Definir um padrão e cumprir um padrão foram espremidos na mesma experiência indiferenciada. Isso não é uma dor entre outras, é a raiz de todas elas: a criação parece pesada porque foi desenhada com a leveza que a aplicação exigia, e a aplicação não guia ninguém porque herdou a densidade que a criação pedia. Cada tela paga o preço de ter sido pensada para a outra.

Com esse enquadramento, o trabalho deixou de ser “melhorar três telas” e passou a ser “separar dois produtos que estavam sobrepostos”.

Painel de dores, classificadas por severidade nas três telas
Mapeei as dores tela a tela e classifiquei por severidade. Todas as marcadas como altas eram sintoma da mesma causa raiz.

Suposições que assumi (e por quê)

Sem acesso a usuário, a escolha honesta não é fingir pesquisa, é declarar suposição e assumir a responsabilidade por ela. Deixei quatro explícitas no próprio material entregue:

  • A aplicação acontece majoritariamente no mobile ou tablet, no chão da loja, mesmo que o print original mostrasse desktop. Essa suposição sozinha reescreve a tela de aplicação inteira.
  • Criação é tarefa de baixa frequência e alta consequência. Aplicação é de alta frequência e baixa tolerância a fricção.
  • O sistema de pontuação existe para a gestão regional medir conformidade, não para ajudar quem cria ou quem aplica. Logo, ele informa, mas não deve comandar a interface.
  • A rede tem volume alto de lojas, então consistência e reuso importam mais do que flexibilidade infinita.

Declarar as suposições foi o que permitiu defender as decisões depois. Sem elas, o redesign seria só preferência estética.

A solução em destaque

  • Home que lidera pela tarefa recorrente. A tela deixou de ser um menu de cinco opções de peso idêntico. Retomar uma auditoria em andamento vem antes de iniciar uma nova, aplicar domina a tela, e as funções de matriz (gerenciar, painéis, exportar, configurar) recuam para peso secundário.
  • Criação quebrada em três momentos. Básico, perguntas, e regras e pontuação. O gestor define o nome, a categoria e a recorrência, depois monta as perguntas, depois ajusta pontuação. Resolve a densidade sem progressão e tira a pontuação da frente de quem só quer escrever uma pergunta.
  • Reuso como caminho de primeira classe. Começar de um modelo passa a ser operação padrão, não exceção. Num contexto de rede, cada checklist nascer do zero é o oposto do que o negócio precisa.
  • Não conformidade conduzida. Resposta conforme passa silenciosa. Marcar “Não conforme” revela, na sequência, gravidade, foto de evidência, plano de ação, responsável e prazo.
  • Aplicação mobile-first, fluxo único. Uma pergunta conduzindo à próxima, sem painel lateral dividindo o estado, com salvamento offline visível.

Processo

  • Diagnóstico antes de solução. Mapeei as dores das três telas e classifiquei por severidade, em vez de sair redesenhando. Foi esse mapa que revelou que as dores altas eram todas sintoma da mesma causa.
  • Benchmarking dirigido por dor, não por inspiração. Cada referência entrou para resolver uma dor específica: Shopify e Linear resolveram a hierarquia da home, Typeform, Google Forms e Notion resolveram a criação, SafetyCulture foi o benchmark central para a aplicação mobile-first conduzida, e a lógica condicional no padrão de Typeform eliminou o ruído das ações repetidas embaixo de toda pergunta.
  • Priorização explícita. Fechei o diagnóstico com um exercício de corte: se eu só pudesse consertar três coisas, seriam separar criar de aplicar desenhando a aplicação para o mobile, conduzir a não conformidade, e trazer reuso e progressão para a criação.
  • Fui direto para alta fidelidade. Com três telas existentes como base e prazo curto, o risco não estava na estrutura, estava na densidade e na hierarquia visual.
  • Não fiz teste de usabilidade. Sem usuário disponível e sem prazo para recrutar, teria sido teatro. Descrevo abaixo como validaria.
Painel de benchmarking, com cada referência amarrada a uma decisão de design
Cada referência entrou amarrada a uma decisão de design, nunca como inspiração solta.

A interface

Home redesenhada, com Continue de onde parou e a lista de checklists atribuídos
Home redesenhada, com 'Continue de onde parou' e a lista de checklists atribuídos
  • “Continue de onde parou” ocupa o topo com estado real da tarefa: percentual, tempo parado e não conformidades já registradas. Quem retoma é o caso mais frequente, então é o que lidera a tela.
  • Os checklists atribuídos trazem a recorrência (diário, semanal) e o tamanho (perguntas e seções) antes do clique, porque o gerente decide o que rodar pelo tempo que tem.
  • As quatro funções de matriz continuam acessíveis, mas em peso secundário e com rótulos na língua do usuário. “Parametrizar” saiu: ninguém pensa “vou parametrizar”, pensa “preciso auditar a loja”.
Tela de criação de checklist, com as abas Básico, Perguntas, Regras e pontuação
Tela de criação de checklist, com as abas Básico, Perguntas, Regras e pontuação
  • A criação virou progressão em três momentos. A aba ativa é Perguntas, porque é onde o gestor passa mais tempo.
  • Cada pergunta mostra tipo de resposta, obrigatoriedade e pontuação como metadado discreto, editável, e não mais como bloco de percentuais que competia com o enunciado.
  • Reordenar é arrastar, não uma setinha em coluna de ações. Editar é um alvo claro, não um lápis de 16 pixels.
  • O estado Rascunho e o botão Publicar deixam explícito que existe um momento de virada: o padrão só vale para a rede quando é publicado.
Sequência de três estados da aplicação mobile: fluxo padrão, não conformidade aberta, retorno ao fluxo
Sequência de três estados da aplicação mobile: fluxo padrão, não conformidade aberta, retorno ao fluxo
  • Fluxo único, uma pergunta por vez, com “Seção 1 de 3” e “2 de 8” resolvendo a orientação que antes exigia um painel lateral inteiro.
  • “Salvo offline” é permanente no cabeçalho. Loja tem sinal ruim, e a confiança de que a resposta não se perdeu é requisito, não detalhe.
  • Marcar “Não conforme” abre o registro conduzido: gravidade, foto, plano de ação, responsável e prazo. Nas respostas conformes, nada disso aparece.
  • As ações de evidência sumiram de baixo das perguntas conformes. O que era ruído constante virou resposta contextual.

Resultado

O teste prático foi aprovado.

Como eu validaria

Com acesso a usuários, três coisas em ordem de risco:

  1. Teste moderado com cinco gerentes de loja, aplicando um checklist real na loja, no horário de abertura. A métrica é conclusão sem ajuda e tempo até a primeira não conformidade registrada com foto.
  2. Teste com três gestores de operações montando um checklist do zero e a partir de modelo. A pergunta é se a progressão em três momentos reduz abandono na criação ou só adiciona cliques.
  3. Dado de produto, se existisse: proporção de não conformidades com foto e plano de ação preenchidos antes e depois. É a métrica que amarra direto ao problema de negócio.

Aprendizados

O ganho maior do projeto não veio de nenhuma tela. Veio de perceber que o briefing descrevia sintomas (“muitos passos”, “não orienta bem”) e que aceitar essa formulação teria produzido um redesign cosmético. O trabalho real foi encontrar a causa comum.

O que eu faria diferente: reservaria tempo para uma rodada rápida de teste, mesmo que com usuários aproximados, porque a suposição de que a aplicação é majoritariamente mobile carrega o redesign inteiro da terceira tela. Ela é bem fundamentada, mas continua sendo suposição, e eu preferiria tê-la testada a tê-la defendida.